sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Entrevista com Adriano Botelho de Vasconcelos


Cultura

“Várias correntes estéticas fortalecem a nossa literatura”
Rita Pablo

No momento em que a Literatura e educação nas camadas mais jovens é tema de debate e preocupação de alguns programas políticos, o Factual foi até à União de escritores angolanos falar com Adriano Vasconcelos. Na entrevista ao Secretário ficamos a conhecer uma organização que é o prelúdio da arte literária angolana.

1 - Gostaria que me falasse um pouco do historial da União de Escritores Angolanos.
A UEA foi fundada no ano de 1975, 10 de Dezembro. É a associação mais antiga do país e hoje, devido aos imperativos modernos de gestão das contas públicas, há cinco anos que é uma instituição de utilidade pública. Temos inscrito cerca de 125 membros. No domínio social destaco a «política de saúde» que tem atenuado os problemas existenciais de muitos dos seus membros

2- Quais são os apoios e de que forma subsiste a União?
A UEA tem uma visão corporativa muito forte e esse princípio tem permitido a existência de uma parceria com o governo e a Sonangol Holding, laços que permitem que a política editorial tenha os devidos incentivos à edição de inéditos dos seus membros e ainda de títulos de potenciais escritores.

3- Principais actividades?
A principal actividade da UEA é a sua política editorial já que tem publicado o maior número de inéditos dos cerca de 125 membros filiados. É ainda a UEA que torna os seus conteúdos conhecidos mundialmente através do seu site (www.uea-angola.org) pois deixamos de ser uma instituição info-excluída. Estamos na aldeia global com conteúdos antológicos nos domínios da poesia e ficção, temos o maior número de entrevistas e ensaios à volta dos livros publicados. Os centros de estudo das faculdades de letras do Brasil e Portugal já têm o site como grande base de dados e pesquisa. Em termos físicos, temos uma biblioteca visitada por mais de 80 mil alunos por ano e esse fenómeno significa que os jovens querem mais equipamentos multimodais e posso afirmar que a cultura do silêncio começa a fazer parte das suas escolhas de ocupação dos tempos livres.

5- Como vê a escrita no contexto social actual?
A nossa escrita não tem ficado estagnada ou simplesmente refazendo estilos antigos. Existem sinais de ruptura estética. Várias correntes estéticas fortalecem a nossa literatura. Em termos temáticos a sua diversidade resulta da solidez da nossa democracia pois deixamos de usar o estilo hermético ou a auto-censura para retratarmos algo que socialmente possa estar distante dos princípios e ética do escritor. A dimensão da utopia de hoje não é menos apaixonante que a utopia de ontem. A democracia e os traços da sua pluralidade têm potenciado os nossos fazeres poéticos e ficcionais e quantas vezes os escritores não buscam no meio social os personagens até para que através desse exercício de sátira se possa conhecer os «rostos» da nossa comunidade. O romance «Erros que matam, da escritora Sónia Gomes, tem como tema a sida, uma peça dramática, mas é a sua beleza de escrita, o seu lápis leve, solto e maduro que grava o tema no nosso imaginário como uma pandemia que deve ser vigiado pela alteração dos nossos hábitos. Quem conhecia o grande poder mágico da escrita de Sónia Gomes?

6 - Acha que os jovens estão mais próximos da literatura ou cada vez mais de costas?
Muitos são os jovens que, nascidos em Angola ou noutros continentes, estão diante de muitas ofertas de produtos culturais profusamente distribuídos através dos meios digitais. As suas escolhas são condicionadas pelo poder do fascínio, das aguarelas fortes e ritmo de vida tão vertiginoso e essas escolhas, infelizmente, tornam mais frágeis as suas dimensões espirituais porque a essência cultural é quase vazia de valores. Naturalmente, acreditam que a cultura resultante desses modismos são impressionantes e os seus verbos fazem parte dos seus códigos sociais, sempre fechados até como forma de ruptura. Toda a cultura que resulte de uma maior exigência, destaco o caso da leitura que obriga a um maior tempo de silêncio, de maturação no processo de criação e de uma viagem mais introspectiva – mesmo quando são protagonistas desse fazer cultural –, é motivo de segunda escolha. O desafio da sociedade de hoje terá que ter como ponto nuclear de viragem a criação das redes de equipamentos multimodais, espaços onde os jovens poderão convergir os saberes culturais e de exposição dos seus produtos. Concluir essa rede na próxima legislatura, será o grande imperativo político para que se tenha mais leitores, novos públicos consumidores de cultura e que esse acto estruturante represente para o país uma grande valorização do tempo. A ocupação dos tempos livres dos jovens quando dirigida e incentivada gerará, certamente, novos produtos e consolidará os discursos de cidadania. Esse desiderato deverá incluir também o treino das habilidades artísticas e a cultura do silêncio como meio de enriquecimento do nosso potencial espiritual. Acredito que tendo mais espaços, mais jovens entenderão que é importante cultivar o belo.

7- Quais são os projectos e incentivos que a União tem para um futuro próximo?
A gestão de interesses da UEA que terá paridade temporal com o novo ciclo de legislatura, deverá criar um espaço de diplomacia de influência junto do novo parlamento para que a lei das «Bolsas de Criação» seja aprovada e os criadores e pensadores da cultura tenham um compromisso de produção de mais conteúdos. Se numa legislatura podermos atribuir mais de 800 bolsas de criação, Angola terá o seu renascimento espiritual. Outrossim, deve saber contratualizar com o novo Governo para que a sua localização privilegiada em termos imobiliário permita o início de uma parceria «público-privada», no caso associativa, erga no seu espaço um empreendimento cultural e de serviços que orgulhe os seus membros e os cidadãos do país. Temos exemplos no mundo da importância dessas parcerias, faz parte dos bons métodos de governação já que o estado não pode fazer tudo.

2 comentários:

Anónimo disse...

Meu nome é Walther Alvarenga, sou jornalista e escritor, no Brasil, resido em São Paulo e tenho cinco livros publicados, dentre os quais: Meu Encontro com Drácula(ficcão), Cinco Crianças (publicado recentemente). Sou presidente da Ong BAE (Organizaçao Nao Governamental Brasileira de Apoio ao Emigrante). Gostei muito da entrevista com o escritor e político Adriano Botelho de Vasconcelos e gostaria de entrar em contato com ele. Por gentileza, peço aos senhores para que encaminhem este e-mail para o escritor. Caso queiram conhecer o meu trabalho como escritor e jornalista, só entrar no Google e digitar o meu nome Walther Alvarenga. Como escritor e jornalista desejo conhecer a Angola, pois tenho acompanhado os eventos culturais que aí acontecem. Vou ficar extremamente feliz de poder participar desses eventos, levando o meu trabalho, afinal, a arte nao tem fronteiras. Um grande abraço! Walther Alvarenga - São Paulo - Brasil.

Movimento Lev´Arte disse...

Caro Walther Alvarenga,

Obrigado pelo seu comentário e teremos todo o gosto em pôr-lhe em contacto com o escritor Botelho e gostaríamos que nos enviase o seu contacto pelo nosso email levarte.angola@gmail.com.

Um Levarteano.